Olhares no ônibus
Se eu conhecesse o homem que se senta à minha frente neste ônibus,
Poderia amá-lo.
Amar seus emergentes cabelos brancos,
Amar a caspa que suave lhe cai aos ombros.
Se eu conhecesse o homem que carrega o trabuco no carro-forte
Ao lado do ônibus,
Poderia amá-lo.
Amar o olhar que desvia da preocupação com a grana que carrega
E encontra o bico do seio da menina que se abaixou pra pegar uma moeda no chão.
Amar o olhar que viu o que meus olhos viram.
O bico do seio,
A menina,
A moeda no chão.
Por um triz seu olhar viu meus olhos vendo seus olhos e o bico do seio.
Por um triz, uma ereção em plena tarde de trabalho,
Trabuco na mão.
Por um triz, um calor no baixo ventre, um tesão.
Ele, trabuco na mão.
Eu, a velha safada no ônibus.
Ela, a menina-moça à beira do abismo da existência.
20/10/10
Se a velha safada passar a ler poemas todo dia, talvez descubra que todo dia é seu Dia do Poeta. Tomara, porque esses olhares no ônibus seduzem fácil olhares pedestres como os meus. Gostei, gostei bem, Clara.
Beijos